Como este texto foi produzido

A explicação abaixo foi preparada a partir do artigo científico integral. Não acrescentamos conclusões que o estudo não sustenta e distinguimos associação de causalidade.

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Em poucas palavras

Um estudo publicado em 2025 acompanhou dados de 172 crianças e jovens com diagnóstico genético confirmado de Síndrome de Noonan atendidos em um grande hospital pediátrico dos Estados Unidos.

Os pesquisadores analisaram desenvolvimento, escola, problemas de saúde e quantidade de cuidados médicos utilizados ao longo do tempo.

Os resultados mostram uma realidade que muitas famílias provavelmente reconhecerão: a Síndrome de Noonan pode envolver diferentes áreas do organismo e exigir acompanhamento de vários profissionais.

Uma informação importante para as famílias

Alguns marcos do desenvolvimento — como sentar, andar e combinar duas palavras — ocorreram mais cedo nesta coorte atual do que em uma coorte histórica publicada em 1992.

Isso não significa que o estudo tenha provado que tratamentos atuais causaram essa melhora.

Por que esse estudo foi realizado?

Muito do que sabemos sobre a evolução da Síndrome de Noonan vem de pesquisas realizadas décadas atrás.

Desde então, os testes genéticos mudaram muito. Hoje, pessoas com manifestações mais leves ou menos típicas também podem receber diagnóstico molecular.

Os pesquisadores quiseram, por isso, construir uma fotografia mais atual da Síndrome de Noonan e compreender melhor como crianças e adolescentes se desenvolvem, quais apoios escolares utilizam e quanto contato têm com o sistema de saúde.

Que tipo de evidência é esta?

Este é um estudo clínico observacional longitudinal. Ele não é um ensaio clínico, não testou um medicamento e não foi desenhado para demonstrar que determinada intervenção causou um resultado.

Quem participou?

Foram incluídas 172 pessoas com diagnóstico molecular de Síndrome de Noonan, todas com menos de 21 anos na primeira avaliação.

Participantes172crianças e jovens
Acompanhamento acumulado1.142,2anos-paciente

A mediana de acompanhamento foi de 6,16 anos. O gene mais frequente foi PTPN11, presente em 61% da coorte. Também havia participantes com variantes em SOS1, RAF1, RIT1, LZTR1, CBL e outros genes.

Os principais motivos para avaliação genética incluíram cardiopatia congênita, características físicas sugestivas, crescimento reduzido ou baixa estatura e atraso do desenvolvimento.

O que o estudo encontrou sobre desenvolvimento?

Nesta população, 65% apresentaram atraso em pelo menos uma área do desenvolvimento.

Motor grosso54%atraso registrado nesta coorte
Motor fino51,7%atraso registrado nesta coorte
Fala27,9%atraso registrado nesta coorte
Terapias de desenvolvimento57%relataram participação

Entre as terapias relatadas estavam fisioterapia, terapia ocupacional e fonoaudiologia. A regressão do desenvolvimento foi rara na coorte.

Esses números não são uma previsão individual

Os percentuais descrevem os participantes deste estudo específico. Eles não significam que toda criança com Síndrome de Noonan terá atraso, nem que essas frequências sejam universais.

Quando ocorreram alguns marcos?

Sentar8 mesesmediana observada
Andar16 mesesmediana observada
Duas palavras juntas24 mesesmediana observada
Comparação históricaMais cedonos três marcos versus coorte de 1992

Em média, a coorte atual sentou 1,5 mês mais cedo, caminhou 3,98 meses mais cedo e combinou duas palavras 6,56 meses mais cedo do que a coorte histórica utilizada pelos pesquisadores.

Isso significa que as terapias fizeram as crianças desenvolverem mais cedo?

O estudo não consegue responder isso.

Os autores discutem que os testes genéticos atuais podem identificar pessoas com manifestações mais leves e também levantam a possibilidade de que o acesso mais precoce a terapias esteja relacionado a trajetórias diferentes. Mas o desenho do estudo não permite provar qual explicação é responsável pela diferença.

Alimentação pode ser um sinal para acompanhar o desenvolvimento mais de perto

Crianças que tiveram dificuldades alimentares na infância sentaram e caminharam, em média, alguns meses mais tarde do que aquelas sem essas dificuldades.

Sentar+3,41 mesesem média, na análise ajustada
Andar+3,90 mesesem média, na análise ajustada

Associação não significa causa

O estudo não demonstrou que problemas alimentares causam atraso motor. Os pesquisadores discutem, por exemplo, que a hipotonia pode contribuir tanto para dificuldades alimentares quanto para atrasos em alguns marcos motores.

A mensagem prática dos autores é que crianças com dificuldades importantes de alimentação merecem acompanhamento atento do desenvolvimento e encaminhamento para terapias quando houver indicação.

E na escola?

Entre os participantes com informação disponível sobre ambiente escolar:

Sala regular47%sem tempo em educação especial
Sala regular com apoio31%com suporte adicional
Educação especial22%mais de metade do tempo
IEP62%entre os que tinham essa informação disponível

O IEP é um plano educacional individualizado do sistema escolar dos Estados Unidos. Ele não deve ser interpretado como equivalente direto a um recurso educacional brasileiro.

O ponto principal é que muitas crianças da coorte frequentavam a escola regular, embora uma parcela importante precisasse de algum tipo de apoio educacional.

Os autores também ressaltam que dificuldades leves podem passar despercebidas e defendem avaliação neuropsicológica e monitoramento contínuo das necessidades educacionais em idade escolar.

Por que o acompanhamento multidisciplinar aparece tanto neste estudo?

Porque Noonan é uma condição que pode envolver diferentes sistemas do organismo.

Na primeira avaliação3,7sistemas do organismo envolvidos, em média
Problemas gastrointestinais73%em algum momento do estudo

Cardiopatia congênita foi o problema médico mais frequente. Questões gastrointestinais também foram comuns, especialmente dificuldades alimentares na infância, refluxo e constipação.

Em quais momentos o sistema de saúde foi mais utilizado?

O estudo encontrou dois períodos de maior utilização dos serviços de saúde:

Primeira infância0–2 anosum dos picos de utilização
Final da adolescência16–17 anosoutro pico de utilização

Os autores sugerem que, no início da vida, isso pode refletir diagnóstico, avaliações iniciais, internações, cirurgias e dificuldades alimentares. No final da adolescência, discutem crescimento, puberdade, saúde neuropsiquiátrica e transição dos cuidados como possíveis fatores.

Essas são interpretações dos pesquisadores. O estudo não demonstrou causalmente por que esses picos aconteceram.

Pessoas com Noonan utilizaram mais o sistema de saúde?

Nesta análise, sim. Os participantes com Síndrome de Noonan tiveram significativamente mais contatos com os serviços de saúde e mais consultas ambulatoriais do que participantes com síndrome de Down e do que a população pediátrica geral atendida no mesmo hospital.

Isso reforçou a conclusão dos pesquisadores de que a coordenação multidisciplinar do cuidado pode ser particularmente importante para essas famílias.

O que este estudo não responde?

  • Como será a evolução de cada pessoa com Noonan?O estudo descreve uma coorte; não prevê trajetórias individuais.
  • Terapias precoces causaram a melhora observada nos marcos?Não foi demonstrado.
  • Dificuldades alimentares causam atraso motor?Não. O estudo mostrou associação, não causalidade.
  • Existe um modelo escolar ideal para toda criança com Noonan?Não. As necessidades são individuais.
  • Os mesmos números se aplicam ao Brasil?O estudo foi realizado em um único centro terciário dos Estados Unidos.
  • Como será a trajetória durante toda a vida adulta?A coorte ainda é relativamente jovem e precisa de seguimento mais longo.

Quais são as principais limitações?

O estudo foi realizado em um único grande hospital pediátrico dos Estados Unidos.

A maior parte dos dados veio de revisão retrospectiva de prontuários. Os autores reconhecem possibilidade de dados ausentes ou inconsistentes, viés de memória e seleção e perdas de acompanhamento.

Alguns marcos do desenvolvimento dependiam de registros médicos e relatos dos pais. Poucos participantes tinham testes neuropsicológicos formais disponíveis, alguns grupos genéticos eram pequenos e não foram coletadas medidas de condição socioeconômica para a análise de uso dos serviços de saúde.

Além disso, a população estudada era relativamente jovem, o que limita conclusões sobre a vida adulta.

Afinal, o que podemos levar deste estudo?

Talvez a principal mensagem não seja um único número. É que o acompanhamento precisa olhar para a pessoa como um todo.

Desenvolvimento, alimentação, coração, crescimento, escola e saúde emocional podem se cruzar ao longo da infância e adolescência.

Ao mesmo tempo, os dados atuais sugerem que o desenvolvimento pode ser menos comprometido do que antigas descrições da síndrome faziam parecer.

Uma forma simples de resumir esta pesquisa: acompanhar cedo aquilo que precisa de apoio — sem presumir antecipadamente quais serão os limites daquela criança.

Sobre o estudo

Título original
Longitudinal outcomes in Noonan syndrome
Autores
Alyssa L. Rippert, Rebecca Reef, Ashika Mani, Arianna K. Stefanatos e Rebecca C. Ahrens-Nicklas.
Instituição principal
Children’s Hospital of Philadelphia (CHOP), Estados Unidos.
Periódico
Genetics in Medicine · 2025;27:101355.
Tipo de estudo
Estudo observacional longitudinal, predominantemente retrospectivo, com participantes molecularmente confirmados.
Financiamento
O tempo de Alyssa L. Rippert foi apoiado pelo Warren Alpert Foundation Advanced Research Training Program for Genetic Counselors, pela University of Pennsylvania.
Conflitos de interesse
Os autores declararam não possuir conflitos de interesse.
Nota editorial

Este conteúdo traduz os resultados do artigo científico para uma linguagem mais acessível sem alterar suas conclusões ou limitações.

Os números apresentados descrevem a população estudada e não devem ser utilizados para prever individualmente o desenvolvimento ou a evolução de uma pessoa com Síndrome de Noonan.

Conteúdo educativo. Não substitui avaliação ou orientação individual de profissionais de saúde.