Síndrome de Noonan e aprendizagem: o que um estudo de 2026 encontrou sobre leitura, matemática e ortografia
Pesquisa com 123 crianças e adolescentes com Síndrome de Noonan e condições relacionadas encontrou mais dificuldades acadêmicas em leitura, matemática e ortografia e investigou a relação dessas dificuldades com memória de trabalho, velocidade de processamento e outras funções executivas.
Este conteúdo foi preparado a partir da leitura integral do artigo Academic achievement in Noonan Syndrome, spectrum, and related disorders. Resultados, limitações e interpretações dos autores são apresentados separadamente.
Abrir a página oficial do estudo ↗Crianças e adolescentes com Síndrome de Noonan e condições relacionadas apresentaram, como grupo, mais dificuldades acadêmicas do que jovens sem essas condições. O estudo também encontrou relação entre desempenho escolar e habilidades como memória de trabalho e velocidade de processamento, mas não permite prever como uma criança específica irá aprender.
Por que este estudo foi realizado?
Já existiam pesquisas descrevendo dificuldades de atenção, memória, funções executivas e outros aspectos do neurodesenvolvimento em pessoas com Síndrome de Noonan e outras RASopatias. Segundo os autores, porém, havia pouca pesquisa examinando diretamente o desempenho acadêmico.
O estudo foi planejado para responder três perguntas principais:
- Com que frequência aparecem dificuldades importantes em leitura, matemática e ortografia?
- Quais habilidades cognitivas estão relacionadas ao desempenho acadêmico?
- O desempenho acadêmico acompanha aquilo que seria esperado a partir da capacidade intelectual medida pelo quociente de inteligência (QI)?
Quem participou?
Os pesquisadores reuniram dados de duas amostras de crianças e adolescentes avaliados nos Estados Unidos.
No grupo com Síndrome de Noonan e condições relacionadas, todos os participantes precisavam apresentar confirmação genética. Os genes e condições incluídos foram principalmente PTPN11, SOS1, RAF1, NRAS, RIT1, SOS2, KRAS, LZTR1, SHOC2 e Síndrome de Noonan com múltiplas lentiginoses.
PTPN11 foi o maior grupo, com 78 participantes, seguido de SOS1, com 22. Os demais grupos eram muito menores. Por isso, o estudo não permite estabelecer diferenças definitivas de aprendizagem entre todos esses genes.
O que foi avaliado?
O desempenho acadêmico foi medido com o Wide Range Achievement Test (WRAT), um teste padronizado. Os pesquisadores analisaram três áreas:
Leitura de palavras
Reconhecimento e leitura de palavras apresentadas no teste.
Matemática
Habilidades de cálculo matemático.
Ortografia
Habilidade para escrever corretamente as palavras do teste.
Funções cognitivas
Também foram utilizados testes de inteligência, memória de trabalho, velocidade de processamento, atenção e outras funções executivas.
O principal resultado
Em comparação com o grupo sem Síndrome de Noonan e condições relacionadas, os participantes do grupo estudado tiveram desempenho significativamente inferior nas três áreas avaliadas: leitura, matemática e ortografia. As diferenças entre os grupos tiveram efeito estatístico grande.
Um cuidado importante ao comparar os grupos
O grupo de comparação apresentou desempenho acadêmico relativamente alto, com médias aproximadamente entre 110 e 114, enquanto esses testes são padronizados com média populacional de 100. Os pesquisadores também compararam o grupo com Síndrome de Noonan e condições relacionadas com a média normativa, e as diferenças permaneceram, embora com magnitudes menores.
Isso não significa que todas as crianças apresentaram baixo desempenho. Os próprios autores destacam a heterogeneidade: há participantes com desempenho acadêmico adequado e outros com dificuldades importantes.
Quantas crianças apresentaram dificuldades importantes?
Os pesquisadores utilizaram pontuação padronizada abaixo de 80 como uma faixa de desempenho compatível com possível transtorno específico de aprendizagem.
Os pesquisadores repetiram a comparação usando também uma estimativa mais recente de 8,85% para transtornos específicos de aprendizagem na população geral. Mesmo com essa referência mais alta, os três grupos continuaram apresentando proporções significativamente maiores de participantes na faixa abaixo de 80 em leitura, matemática e ortografia.
O estudo não diagnosticou transtorno específico de aprendizagem
Essas porcentagens representam participantes que tiveram desempenho em uma faixa considerada compatível com possível transtorno de aprendizagem. Eles não passaram por uma avaliação clínica específica para estabelecer esse diagnóstico. Por isso, não seria correto concluir que “até 38% das crianças com Síndrome de Noonan têm transtorno de aprendizagem”.
Memória de trabalho e velocidade de processamento parecem ter papel importante
No primeiro grupo estudado, memória de trabalho e velocidade de processamento estiveram relacionadas ao desempenho em leitura, matemática e ortografia. No segundo grupo, memória de trabalho esteve relacionada a leitura e matemática; medidas de controle inibitório e atenção também estiveram relacionadas à matemática.
Quando essas funções foram incluídas nos modelos estatísticos junto com a presença de Síndrome de Noonan ou condição relacionada, os modelos explicaram aproximadamente entre 36% e 49% da variação no desempenho acadêmico, dependendo da habilidade e da amostra.
Essas habilidades parecem contribuir para o desempenho escolar, mas não são a única explicação. Aproximadamente metade ou mais da variação continuou sem ser explicada pelos modelos. Os autores citam linguagem, memória, sintomas de transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e fatores familiares como aspectos que estudos futuros podem investigar.
Outro resultado importante: questionários respondidos pelos cuidadores sobre atenção e funcionamento executivo não apresentaram relação significativa com o desempenho acadêmico, enquanto várias medidas objetivas de desempenho cognitivo apresentaram.
Inteligência e desempenho acadêmico não são a mesma coisa
Os pesquisadores também exploraram se o desempenho acadêmico poderia ficar abaixo do que seria esperado considerando a capacidade intelectual medida pelo QI.
No grupo PTPN11, a distribuição dessa diferença foi semelhante à do grupo sem Síndrome de Noonan e condições relacionadas. No grupo SOS1, os pesquisadores encontraram um padrão diferente: em vários participantes, o QI era maior do que o desempenho acadêmico observado.
Os autores levantam a possibilidade de esse padrão indicar maior suscetibilidade a dificuldades específicas de aprendizagem associadas a SOS1. Esse resultado é exploratório. O grupo SOS1 tinha apenas 22 participantes, e análises adicionais ficaram limitadas pelo tamanho da amostra.
O estudo não permite comparar genes de forma definitiva
Não é correto concluir a partir deste trabalho que SOS1 causa mais dificuldades acadêmicas que PTPN11. Os grupos genéticos raros eram ainda menores, e os próprios pesquisadores afirmam que são necessários estudos maiores.
O que os pesquisadores recomendam?
Os autores consideram que a frequência encontrada de dificuldades acadêmicas justifica avaliação e acompanhamento atentos do desempenho escolar de crianças e adolescentes com Síndrome de Noonan e condições relacionadas.
Eles defendem identificação precoce de dificuldades em leitura, matemática e ortografia e suporte educacional quando necessário.
Tempo adicional
Os autores citam mais tempo em provas e tarefas como exemplo de acomodação possível.
Guias visuais
Também citam recursos visuais como apoio à memória de trabalho.
O estudo não demonstrou que toda criança precisa dessas adaptações. Também não testou um programa específico de intervenção educacional. Os pesquisadores afirmam que ainda é necessário estudar se intervenções direcionadas a memória de trabalho, velocidade de processamento e outras funções executivas melhoram efetivamente o desempenho acadêmico.
O que este estudo não mostrou
- Toda criança com Síndrome de Noonan terá dificuldades escolares?Não. O estudo mostra diferenças de grupo e grande variação individual.
- O estudo prevê o futuro acadêmico de uma criança?Não. Ele avaliou crianças e adolescentes de 5 a 17 anos e não acompanhou sua trajetória universitária ou profissional.
- Os participantes foram diagnosticados com transtorno específico de aprendizagem?Não. O estudo identificou pontuações compatíveis com possível transtorno, mas não realizou diagnóstico clínico específico.
- Um gene determina como a criança aprenderá?Não. As análises por genótipo foram limitadas, especialmente nos grupos menores.
- Treinar memória de trabalho garante melhora nas notas?Não. O estudo não testou essa intervenção.
- O estudo avaliou direitos escolares no Brasil, bullying ou trauma?Não. Esses temas não faziam parte da pesquisa.
Limitações importantes
Os autores apontam limitações que precisam ser consideradas ao interpretar os resultados.
- Grupos genéticos pequenos: variantes menos frequentes não puderam ser analisadas de forma robusta.
- Grupo de comparação: não representava perfeitamente a população geral e teve desempenho cognitivo e acadêmico relativamente alto.
- Critério de QI: os participantes com Síndrome de Noonan e condições relacionadas precisavam ter QI de pelo menos 70, de modo que os resultados não representam adequadamente pessoas com comprometimento intelectual mais significativo.
- Uma medida por área acadêmica: leitura, matemática e ortografia foram avaliadas com um subteste cada, enquanto uma avaliação clínica completa costuma utilizar múltiplas medidas.
- Pandemia: parte da coleta ocorreu durante a COVID-19, e o estudo não conseguiu controlar quanto tempo cada participante passou em ensino remoto ou presencial.
Financiamento e conflitos de interesse
Os autores declararam não possuir potenciais conflitos de interesse.
O estudo recebeu financiamento da Harvey L. and Maud C. Sorensen Foundation, do Eunice Kennedy Shriver National Institute of Child Health and Human Development, do National Institute of Mental Health e do Stanford Maternal & Child Health Research Institute, além de apoios acadêmicos relacionados.
Segundo o artigo, as fontes de financiamento não participaram do desenho do estudo, coleta, análise ou interpretação dos dados.
O estudo encontrou maior frequência de dificuldades acadêmicas em crianças e adolescentes com Síndrome de Noonan e condições relacionadas, mas não descreve um único perfil de aprendizagem.
As médias e porcentagens do grupo não permitem prever o desempenho de uma criança específica. Os resultados reforçam a importância, segundo os autores, de identificar dificuldades acadêmicas precocemente e oferecer suporte quando necessário.
Sobre o estudo
- Título original
- Academic achievement in Noonan Syndrome, spectrum, and related disorders
- Autores
- Sara K. Pardej, Julia R. Plank e Tamar Green.
- Instituição
- Department of Psychiatry and Behavioral Sciences, Stanford University School of Medicine, Estados Unidos. Sara K. Pardej informa endereço atual na Gonzaga University.
- Periódico
- Child Neuropsychology.
- Publicação
- Online em 8 de setembro de 2026.
- DOI
- 10.1080/09297049.2026.2709447
- Participantes
- 123 jovens com Síndrome de Noonan e condições relacionadas e 172 jovens sem essas condições.
- Conflitos de interesse
- Os autores declararam nenhum potencial conflito de interesse.
Além do estudo: perguntas que famílias podem fazer
As perguntas abaixo não foram formuladas nem investigadas como parte do estudo de Pardej, Plank e Green e não representam conclusões das pesquisadoras.
Elas foram propostas pelo autor/editor do Síndrome de Noonan Brasil a partir de dúvidas práticas que podem surgir para famílias depois da leitura da pesquisa. Quando a resposta é informada pelo próprio estudo, isso é indicado. Quando a pergunta depende de outros conteúdos do portal, os links aparecem separadamente.
Meu filho terá mais dificuldades na vida acadêmica?
O que este estudo permite dizer
O estudo mostra que crianças e adolescentes com Síndrome de Noonan e condições relacionadas apresentaram, como grupo, maior frequência de dificuldades acadêmicas do que jovens sem essas condições.
Ao mesmo tempo, existe grande variação individual. O estudo não permite prever que uma determinada criança terá dificuldades acadêmicas.
O que o estudo não respondeu
A pesquisa não acompanhou os participantes até a universidade ou vida profissional. Portanto, não informa como será a trajetória acadêmica de longo prazo de uma pessoa específica.
Se meu filho tiver dificuldades, o que posso fazer para ajudá-lo a desenvolver o máximo de sua capacidade?
O que este estudo permite dizer
Os autores recomendam identificar precocemente dificuldades em leitura, matemática e ortografia e oferecer suporte educacional quando necessário. Memória de trabalho, velocidade de processamento e outras funções executivas também merecem atenção porque estiveram relacionadas ao desempenho acadêmico.
O que o estudo não respondeu
O estudo não testou um programa de intervenção educacional. Portanto, não demonstrou qual método de ensino, terapia ou treinamento produz os melhores resultados.
Como a escola pode se preparar para receber um aluno com esse perfil?
O que os autores sugerem
O estudo recomenda acompanhamento das habilidades acadêmicas e suporte direcionado às necessidades identificadas. Os autores citam explicitamente tempo adicional em provas e tarefas e guias visuais para auxiliar a memória de trabalho como exemplos de acomodações.
O que o estudo não respondeu
A pesquisa não criou um protocolo escolar específico para Síndrome de Noonan e não avaliou escolas brasileiras.
O que uma escola é obrigada a oferecer no Brasil?
Esta pergunta não foi estudada no artigo. O trabalho foi realizado nos Estados Unidos e não avaliou a legislação ou o sistema educacional brasileiro.
Este guia reúne a orientação do portal sobre direitos, registros, negativas e caminhos de apoio no contexto brasileiro.
O que não fazer para não causar traumas nessa criança?
Esta pergunta não foi investigada neste estudo. O artigo não avaliou bullying, autoestima, ansiedade escolar, trauma psicológico, estigma ou o impacto emocional de práticas escolares.
Esses conteúdos abordam a conversa com a escola e apoios educacionais em páginas separadas deste estudo.
O corpo científico deste artigo traduz o estudo original para linguagem mais acessível, preservando seus resultados, limitações e grau de evidência. A seção “Além do estudo” é deliberadamente separada e identificada para não atribuir às pesquisadoras perguntas ou conclusões que não fizeram parte da pesquisa.
Conteúdo educativo. Não substitui avaliação ou orientação individual de profissionais de saúde ou educação.
